
Como quem perde a lucidez, momentaneamente não existo. Minhas certezas flutuam como nuvens albinas no azul do céu. O silêncio existe. Mergulho no silêncio como quem mergulha num banho tépido, e o eco que as batidas do meu coração produzem são o único sinal vital. Quisera eu não ver as coisas de modo tão transparente! Quisera eu não viver os momentos de forma tão intensa e hipérbole. Mas "sou", e como a fúria de um dilúvio existo. Existir dói, escarna, sangra... Mas é tão sublime! É tão sublime viver como um enólogo que discerne os mais variados vinhos: degustando, sem receio, uma infinidade de detalhes e sabores da vida. É difícil, é amargo, mas também é doçura e leveza.
O que seria de nós, seres humanos, se não tivéssemos a capacidade de surdir em cada devaneio? Possuímos a capacidade e, felizmente, os sonhos são capazes de romper ferozmente a realidade.
Eu sonho! Pois sonhar é ultrapassar o imensurável, o eterno, o inexeqüível. É viver - sem temores - o mais impossível. É sentir plenamente cada momento: cada lágrima, cada sorriso/risada, cada dor, cada realidade aspirada. É cair no mais profundo abismo e levantar vôo. É lutar sem o medo de se machucar e perecer. É sempre conseguir enxergar lucernas nos mais obscuros túneis. É mover o céu, a terra e o mar com a força dos desejos. É estar vazio e sentir-se pleno de tudo. É conseguir conseguir sentir, mergulhado no mais infindável silêncio, o doce mistério dos sonhos. E não existem empecilhos, não existem dogmas, tampouco regras: sonhar é uma das mistificações mais cósmicas.
E nada pode impedir meu contentamento insólito; nada pode impedir minha amargúra-aprendizado, pois eu sonho com a sede dos mais infrenes devaneios, do êxtase mais acéfalo, da candura mais menosprezada, do vôo mais livre!
Eis uma característica de minha essência indelével: ao sonhar consigo tocar a realidade ilibada - a realidade inautida - a realidade incrustada no fundo da alma.
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