
Eu gostaria de não ter lapsos de reflexão sobre as perdas que surgem com a vida, mas é praticamente impossível abster-se de refletir o que nos é predestinado nas mais variadas formas assim que entramos na atmosfera vil. Faz parte do ciclo da vida: perde-se hoje, ganha-se amanhã; ganha-se hoje, perde-se amanhã, e assim sucessivamente, até cansarmos do joguinho enfadonho ou sermos expurgados do cosmo. A que coloco aqui, como escopo, é a que vem após a morte corpórea de outrem – a mesma que fica ainda mais profunda após o fechar de uma campa. Esta é deveras cruel, impiedosa, e capaz de pungir as carnes até o ilusório sangue gotejar ávido. É dor inexprimível, que corrói tacitamente. É dor que desatina. É dor que não se mede e é irreparável e inesquecível.
É frustrante saber que não se pode ir contra a ordem natural das coisas. Dói de verdade, como se fôssemos morrer juntos. Mas o que podemos fazer? Nada, além de tomar para si o momento de cólera, consternação e tristeza; nada além de sentir a senhora Dor invadir a alma.
(Viver tem dessas coisas, e eu gostaria de possuir palavras que soassem como afago à alma... Mas não as possuo.)